A história de Balaão e do profeta Homem de Deus

As semelhanças e diferenças dos acontecimentos descritos nos textos de 1 Reis 13 e Números 22 a 24.

     A partir de Números 22, a Bíblia conta como Balac, rei de Moab, inimigo de Israel, pede que Balaão amaldiçoe a Israel para que o seu exército de Moab possa vencê-lo.
     As palavras de Balaão servem para sublinhar um conceito clássico da literatura profética, ou seja, o profeta deve ser instrumento da vontade de Deus e não pode absolutamente seguir a própria inclinação; deve anunciar o que Deus comanda e não aquilo que os governantes querem ouvir.
     Antes de aceitar o convite para ir, Balaão pede que os mensageiros de Balaque esperem até o amanhecer, pois iria, aquela noite, consultar ao Senhor. Balãao consulta ao Senhor e diz que não recebe nada, mesmo que seja a casa de Balaque cheia de ouro e prata, pois obedeceria estritamente a ordem de Deus, que era de não amaldiçoar. O texto retrata a realidade da época, em que os encantadores cobravam preço. No versículo 7, o texto mostra que os anciãos dos moabitas levavam consigo o preço dos encantamentos.
     Balaque não fica satisfeito e envia novamente outros mensageiros. Balão então consulta o Senhor para ver o que MAIS O SENHOR FALARIA. Deus permite a sua ida, mas para abençoar o povo e não amaldiçoar. Quando Balãao se dispõe a obedecer a ordem de Deus, a ira divina se ascende. No versículo 32, após Deus abrir os olhos espirituais de Balãao, para que visse o Anjo do Senhor, há uma explicação para essa ira: "Eis que eu saí como teu adversário, porque o teu caminho é perverso diante de mim". Concluímos, então, que a ira de Deus se ascende contra Balaão não porque ele se dispôs a buscar mais conhecimento da parte de Deus para responder aqueles mensageiros que vieram pela segunda vez. Balãao teria que dá uma resposta novamente e não ficariam satisfeitos ao ouvir a mesma resposta. Com sabedoria, ele consulta novamente o Senhor, e por meio desta estratégia, Deus se revela a Balaque como um Deus que governa a humanidade, que está acima dos encantamentos e feitiçarias, que transforma a maldição em bênção. Deus, num momento especial, abençoa por três vezes o povo de Israel, usando a boca de Balaão. Este, certamente, se não fosse buscar MAIS RESPOSTA DO SENHOR, teria impedido a manifestação do poder de Deus diante de uma nação, os moabitas. Toda terra ao redor ficou sabendo que havia um Deus em Israel que protegia seu povo. Que mesmo diante da insistência de um rei que não temia a Deus, o poder do soberano excedia o poder que Balaão tinha de amaldiçoar e abençoar, pois Balaque, no versículo 6, relata que a quem ele abançoava, abençoado seria e a quem ele amaldiçoava, amaldiçoado ficava. Por três vezes Deus coloca palavras na boca de Balão e todos os moabitas, inclusive Balaque, presenciam o destino que Deus reservara para seu povo escolhido. Balaão e Balaque tomam cada um o seu caminho. Agindo Deus, quem impedirá?
     No episódio de 1 Reis 13, vimos claramente a ordem de Deus a um homem para clamar contra o altar de Betel. O rei Jeroboão havia se rebelado contra Deus e feito um bezerro de ouro para que todos rendessem adoração a esse bezerro. Ele levanta seus próprios altares, desprezando o altar de Deus e as festas sagradas impostas pela Lei de Moisés. O homem de Deus obedece ordem de clamar, de anunciar mensagem de julgamento, pois o rei estava fazendo o que era mau aos olhos de Deus. Porém, além da ordem de anúncio do julgamento, o homem de Deus recebe outra ordem: a de não comer, nem beber nada em Betel e nem de voltar pelo mesmo caminho. Quando Jeroboão recebe de Deus a cura de sua mão, resolve convidar o profeta para comer e beber. Ele então se lembra da determinação de Deus em não fazer tal coisa. Obedece e vai por outro caminho. Mas, ao encontrar um profeta que mentiu, desobedece a Deus e, em conseqüência, é morto por um leão. O homem de Deus deveria ter consultado o Senhor para ver se aquele profeta velho estava falando ou não verdade. Se ele tivesse agido como Balaão, consultado ao Senhor para saber mais resposta do alto, ele teria preservado sua vida. O exemplo deixado seria o de obediência e, no caso da dúvida, o de consultar o Senhor a cada passo de nossa vida. Infelizmente a mentira do velho profeta o seduziu a desobedecer ao Senhor. Deus permitiu aquela mentira para deixar como exemplo para nossa geração que a cada situação nova em nossa vida há a necessidade de se buscar orientação, de se saber o que o Senhor tem a falar a mais do que já foi dito, quando surge uma nova situação que aparentemente vem de Deus. Ele havia obedecido a Deus, havia voltado por um caminho diferente do que foi, não comeu e nem bebeu nada em Betel e, de repente, aparece alguém dizendo ter recebido uma ordem de Deus para que comesse. Para o homem de Deus, nada havia de errado, pois como profeta de Deus, ele pode ter confiado que aquele homem, também profeta, estava falando a verdade. Entretanto, estava mentindo e o homem de Deus não consultou ao Senhor se aquela palavra vinha de Jeová. Qualquer pessoa que se disponha a servir a Deus deve saber que há perigos e tentações e por isso não deve confiar no homem, mas está com sua comunhão com Deus em atividade. O jejum, a oração, a Palavra de Deus são as armas que temos para que o canal de comunicação com Deus não falhe. Dessa forma, a cada decisão em nossa vida, devemos perguntar ao Senhor, invocar o nome Dele.
     Concluímos, então, que Balaão sofreu a ira de Deus e ganhou um adversário no caminho, não porque obedecera sua ordem para ir e falar apenas o que ele colocaria em sua boca, como aconteceu por três vezes, mas porque seu caminho era mau diante de Deus. Podemos até fazer a obra de Deus, ser usado por ele e não abandonar um mau caminho que cultivamos, mas o cálice da ira de Deus tem um limite e quando chega a um ponto de transbordar, Deus usa determinada circunstância para enviar o "céu de bronze" sobre nossa cabeça. Balaão pode entender que a jumenta foi instrumento de Deus para repreensão dos atos maldosos de sua vida. Deus mostrou a Balaão a quem pertence todo domínio, todo poder e quem é o vaso nas mãos de um oleiro. Jeremias 18 mostra que estamos nas mãos de Deus como um vaso está nas mãos do oleiro. Ele quebra, faz um novo e coloca alça ou não, na medida de sua vontade. Balaão seguiu seu caminho entendendo que o Deus de Israel é quem dá as ordens no mundo. Mesmo com um caminho mau, e servindo ao Senhor de forma relaxadamente, Deus revelou a Balaão que "antes que houvesse dia, ele era; e nenhum há que possa livrar alguém das mãos dele; agindo ele, quem impedirá?" (Isaías 43:13).
     Os presentes de Balaque não foram suficientes para comprar a fidelidade de Balaão em consultar ao Senhor antes de lhe dá uma resposta. Esse é um exemplo que devemos seguir. Em 2ª Tessalonicenses, Paulo nos ensina que devemos julgar todas as coisas e reter o que é bom. Do episódio narrado em Números 22 a 24, podemos julgar a conduta de Balaão e reter a obediência dele em atender ao Senhor e só falar o que ele colocou em sua boca, além do que devemos aprender a buscar resposta de Deus diante de situações inovadoras, mesmo que já temos uma resposta para uma situação semelhante. O Senhor é de multiforme sabedoria e seu modo de agir muda, pois ele é um ser inteligente. Deus disse por intermédio do profeta Jeremias: "O Senhor estabeleceu a terra pelo seu poder; estabeleceu o mundo por sua sabedoria e com a sua inteligência estendeu os céus." (Jer 10:12). Ele não se limita a agir da mesma forma. Hebreus nos ensina, no capítulo 1, que Deus falou ao seu povo, por meio dos profetas, de diversas maneiras, em diversas vezes. Hoje nos fala por meio de seu filho Jesus. O poder de Jesus é ilimitado e sua atuação na terra, como o verbo encarnado, nos dá o exemplo da diversidade com que operou milagres, com que pregou, ensinou e expulsou demônios. Somos guiados pelo vento do Espírito que sopra onde quer, e vem de onde quer. Não sabemos donde vem e nem para onde vai. Todo que é nascido de novo segue o vento do Espírito (João 3:8) e não há regras para atuarmos, pois dependemos de Deus a cada segundo de nossa vida.
     O homem de Deus pode ter confiado numa experiência espiritual passada. Não consultou novamente a resposta do Senhor. Por que não havia comido e nem bebido na casa do rei Jeroboão e porque voltou por outro caminho, entendeu que estava sob a vontade do Senhor. Muitas vezes recebemos um dom de Deus e achamos que estamos aptos a multiplicar o talento com nossa própria sabedoria. Paulo nos ensina que ele não dependia de sabedoria humana para viver neste mundo, mas da graça de Deus. Quando achamos que já sabemos tudo, a morte espiritual vem. Um dos pecados que mais entristece o Espírito Santo é a independência de Deus. Tornamo-nos independentes quando deixamos de consultar o Senhor para as questões mais elementares. É aí que mora o perigo, a tentação. É aí que somos enganados por falsos profetas, que se dizem enviados de Deus. Quando aprendemos a consultar ao Senhor para executar pequenas coisas, o risco do engano diminui. Deus mantém a aliança com aqueles cujo coração é reto diante dele. Como ter coração reto se não dependemos do Senhor? Há uma coerência entre buscar o Senhor, não ser enganado por falsos profetas e viver na dependência dele.

Por Auxilandia.

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