“O Deus eterno te seja por habitação, e, por baixo de ti, estejam os braços eternos.” (Dt 33:27)

         Este trecho é parte da bênção proferida por Moisés, pouco antes de sua morte, após conduzir o povo hebreu por quarenta anos no deserto. Inspirado pelo Santo Espírito, este profeta descreve um oráculo que inclui a graça divina para cada primogênito de Jacó e o propósito para o qual Deus estabeleceu o povo de Israel, tribo por tribo. Termina suas palavras de gratidão e de revelação da vontade divina com o seguinte  texto poético: “Feliz és tu, ó Israel”! Quem é como tu? Povo salvo pelo Senhor, escudo que te socorre, espada que te dá alteza. Assim, os teus inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás os seus altos”. O versículo 27 nos transporta para a dimensão do cuidado eterno. Habitar em tetos firmados pelo próprio Deus e ser protegido pelos braços eternos que trazem o carinho, a proteção, o acolhimento, o auxílio e, acima de tudo, a liberdade que indica a bênção mais desejada pelo ser humano, que é frágil, carente e sujeito a erros e pecados. O povo hebreu havia sido escravo por quatrocentos anos no Egito. O porta- voz de Deus estava no Monte Nebo nos últimos momentos de sua vida, porém com intrepidez e coragem proferiu palavras que mudaram o destino do povo eleito, dando-lhe condição de expressar o culto ao único Deus criador numa terra sem opressão. A conquista da terra seria o humilde começo de uma grande história que teve o desfecho com o nascimento de Jesus, descendente da Tribo de Judá, que inaugurou um novo tempo. A história desse povo ainda terá um grande acontecimento que todo olho verá: A segunda vinda de Cristo, para eternamente ser o Leão da Tribo de Judá, que governará o mundo com justiça e retidão numa terra recriada pelo poder sustentador de sua Palavra. Em seu cântico, Moisés declara o monoteísmo que deveria permear a vida espiritual dos hebreus, reproduzindo as Palavras do Eterno Deus: “Vede agora, que EU SOU, Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão” (Dt 32:39). Os deuses mitológicos nivelam-se às baixezas de seus seguidores, com cultos movidos por orgias sexuais, alucinógenos e sacrifícios humanos. Foi  um desafio para o povo hebreu enfrentar a destruição de altares pagãos para garantir a santidade exigida do Soberano do universo. Ele não divide sua glória com ninguém e, portanto, essa exigência deveria ser seguida com muito critério, para o bem comum, pois a dedicação ritualística pagã é direcionada a demônios, e males são compartilhados, tornando os moradores culpados do sangue dos inocentes. O profeta Jeremias lembrou ao povo que os deuses falsos são mortais, como Perséfone, deusa grega que morria a cada ano no outono e ressurgia na primavera. O reino das trevas é capaz de enganar mentes com tamanha insensatez! “Mas o Senhor Deus é a verdade; ele mesmo é o Deus vivo e o Rei eterno” (Jr 10.10). Crer em um só Deus era privilégio dos hebreus, os quais deveriam manter sua identidade e santidade numa terra que cultuava pelo menos a 70 divindades. Baal, muito apontado pelos profetas bíblicos, era tido como o mestre, o marido, o possuidor e celebrado pelos cananitas e sumérios como o deus da natureza. Mesmo tendo a direção divina de manter a aliança com o EU SOU, o povo hebreu se prostituiu espiritualmente e trocou a proteção eterna pelos males provocados pelo engano de Satanás por muito tempo. Agindo com misericórdia, Deus levantou reis cujo coração foi inclinado à obediência no resgate da adoração verdadeira. O criador por si só controla todas as coisas. Ele e mais ninguém pode tirar e dá a vida, numa expressão de soberania indiscutível.

         Os perigos de cultuarmos a ídolos criados em nosso íntimo nos colocam na posição de adúlteros diante de Deus. Não podemos permitir que o amor excessivo a nós mesmos, sem considerarmos os  interesses alheios, ocupe o nosso coração. O egoísmo é um sentimento reprovado por um Deus que se doou numa cruz para salvação de pecadores e não de justos. Outro ídolo comum, que devemos destruir e reconduzir a adoração ao Criador, é a ausência de misericórdia, que nos leva à dimensão de sermos perfeitos, sem falhas e sem pecados. Todas as obras divinas são permeadas pela misericórdia e a falta dela nos leva à arrogância. Ser misericordioso é ter humildade para reconhecer a fragilidade humana e conceder perdão, mesmo diante do maior pecado por nós assim considerado.  O escritor de Provérbios afirma que o “justo cai sete vezes e se levanta.” Mas o coração que cultua o orgulho não consegue admitir o retorno do perdoado por Deus à vida de produtividade no reino dos céus. Nosso julgamento aponta para um congelamento dessa alma e ao total isolamento. Quando tentamos conhecer Deus por nosso próprio esforço, caímos no desconhecimento, pois sem Jesus nada podemos fazer. Quando enxergamos  a fraqueza do próximo sem as lentes da graça, provocamos a quebra da aliança com Deus.

A minha alma chorará em segredo por causa da vossa soberba; chorarão os meus olhos amargamente e se desfarão em lágrimas, porquanto o rebanho do Senhor foi levado cativo.” (Jr 13:17). A coroa de nossa glória cai quando subimos em saltos espirituais e olhamos o pecador com desprezo. O próprio Deus exclama que sua alma e seus olhos vertem lágrimas  penosamente quando seus filhos erram o alvo por ele determinado. Se os braços eternos de Deus nos sustentam em todos os momentos, porque desprezamos os fracos na fé? Paulo nos ensina a acolher os débeis sem discutir opinião, porque um crê que de tudo pode comer, mas o débil entende de forma diferenciada. E ainda aconselha: “quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu” (Rm 14). Isaías afirmou pelo Espírito que o Senhor é nosso juiz e nosso legislador (Is 33:22). Os caminhos de Deus são insondáveis e inescrutáveis seus juízos, assim nos ensinou o apóstolo Paulo. Usos e costumes muitas vezes nos levam a criar doutrinas sem respaldo bíblico e nos conduzem a julgamentos a partir de referenciais humanos ou culturais. Nem sempre o que é pecado aos nossos olhos o é para Deus. Lembremo-nos da Prostituta Raab, que permaneceu na história bíblica como a que escondeu os espias por fé no Deus de Israel. Nossa sentença a classificaria como mentirosa. Davi comeu os Paes da Proposição quando fugia dos inimigos de Saul e precisava recobrar suas forças. Para os entendidos da Lei de Moisés, dada pelo próprio Deus, ele teria de ser eliminado da comunidade de Israel, porquanto havia ingerido comida sagrada, pertencente apenas aos sacerdotes. Contudo, Jesus aprovou a atitude de Davi, pois a misericórdia, o amor e a fé são preceitos essenciais de um ordenamento jurídico, já que a Lei deve beneficiar e não prejudicar. Davi e sua comitiva seguiram viagem, alimentados com pão santo, algo imperdoável aos cumpridores da Lei. Rebeca é considerada no meio dos pregadores como enganadora e que induziu Jacó a enganar. Mas somente ela guardava no coração a promessa eterna de que o mais velho serviria ao mais moço. A única forma de isso acontecer na cultura hebreia da antiguidade era o recebimento da bênção paterna por parte do primogênito nas proximidades da morte do patriarca. A ação de Rebeca  no reino físico permitiu a concretização da promessa. Rebeca, por fé, creu no Deus que acalmou seu coração quando os filhos agitavam em seu ventre, antes de nascerem. E, assim, herdando as bênçãos de primogenitura, Jacó torna o pai de Israel, em estrita obediência à escolha divina revelada à sua mãe. Jacó também é tido pelos pregadores e leitores da Palavra como o enganador. Mas o texto bíblico revela que ele agiu em estrita obediência à ordem de sua mãe, que conhecia a vontade de Deus para a vida dele. A cultura leva-nos a emitir juízo de valor e a sentenciar como pecado, quando Deus assim não afirma. Maria, ainda sem contato com homens, ficou grávida. Se tivéssemos presenciado o desenvolvimento de sua gravidez antes de seu casamento, iríamos emitir nosso juízo: deve ser apedrejada! Essa era a pena  para os adúlteros ou para a  virgem que se prostituía na casa do pai em Israel . O agir de Deus é loucura aos olhos humanos. Jamais perscrutaremos o entendimento divino. Deus responde a Moisés: diga a Faraó que EU SOU O QUE SOU. Ou seja, O Todo Poderoso estava afirmando: “vocês não podem me desvendar e nem me conhecer por qualquer esforço humano, porque sou alguém misterioso e permanecerei assim. Sou o incomparável e meu modo de agir não cabe nas suas mentes limitadas.” Mas ele se dá a conhecer, por iniciativa dele, pelas coisas que foram criadas e pelo penhor do Espírito que recebemos para o dia da redenção.  Ele se revela no amor que deve brotar de nossos corações por ele e pelo próximo. Dizemos que amamos, mas nos contradizemos com a falta de atitude amorosa. Esse deus pagão deve ser destruído. A grandeza de Deus em seu ápice foi anunciada por Jesus na noite que antecedeu sua crucificação. Cristo, em sua oração sacerdotal, afirmou: “manifestei teu nome aos homens que me deste” (Jo 17:6). Como foi essa manifestação? Não foi somente por palavras, mas por gestos regados a misericórdia e compaixão. O desvendar de Deus gera aliança, compromisso de ter a divina semente germinada no coração. Assim, não haverá lugar para outros deuses. O temor de Deus será a base do relacionamento que garantirá a presença dos anjos que acamparão ao nosso redor para livramento. Assim como Moisés, ao partir dessa vida, abençoou o povo de Israel, Jesus, antes de sua morte vicária, nos abençoou, clamando ao Pai: “Guarda-os em teu nome aqueles que tu me deste, para que eles sejam um, assim como nós”. (Jo 17.11) .  E, dessa forma, o Eterno Deus será nossa habitação e seus braços eternos estarão sempre abertos para nos receber como filhos.

Por Auxilandia, pastora em Cristo, serva de Deus.

23 - 05 2010

 
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