“Fazes resplandecer a minha lâmpada; O Senhor, meu Deus, derrama luz nas minhas trevas.”

 (Sl. 18:28)

 

                 Falta de energia que produz luz provoca desarranjo nas tarefas e medo nos corações. Promove receio do prejuízo ou do não cumprimento de obrigação importante. Temores se apoderam de diversas maneiras na falta de luminosidade. A negritude impede tanto as pequenas realizações quanto grandes projetos e ocorre no mundo físico e na mente. Em se tratando de questões do reino natural, lanterna, vela, lamparinas e até brinquedos infantis fornecem raios luminosos que nos permitem locomoção e a prática de uma rotina. Entretanto, há momentos em que trevas invadem nosso ser, mesmo diante da claridade emitida pelos corpos celestes ou pela energia elétrica que permitem visão natural.

                 Em Sonetos, o escritor Antero de Quental descreve o amanhecer como um dilúvio de luz que cai da montanha. Ele, então, exclama: “Eis o dia! Eis o sol!”. Esperamos sempre um amanhecer para clarear a mente que se torna confusa nas lutas diárias e na falta de compreensão de acontecimentos dolorosos. Ainda que a estrela da alva apareça no escuro azul celeste, ela se torna oculta quando as lágrimas escorrem como torrentes de um rio. Seu resplendor apresenta-se ineficiente.

O Salmo 18 foi escrito por Davi, que iniciou seu reinado em Hebron por volta de 1010 a.C. depois de enfrentar dissabores nas mãos de Saul, o primeiro rei em Israel. Neste período, verdadeiramente a alma de Davi esteve imersa em negridão. Apenas um raio especial poderia invadir seu coração e fazer resplandecer a lâmpada que se apagara pelo medo da morte tramada pelo exército de Saul. Ele almejava o raiar do sol em seu íntimo. E, percorrendo os olhos nas grandezas de Deus representadas na natureza, percebe que a radiação teria que descer do Pai das luzes. A fonte que dissipa as trevas jorra de um ser cujo caráter é puro, sem mácula, e que se doa na dimensão do amor incondicional.  O Santo de Israel era a fonte que forneceria o azeite para a lâmpada de Davi. E, compreendendo que não havia outro deus a quem recorrer, declara em cânticos:

 

Eu te amo, ó Senhor, força minha. O Senhor é a minha rocha, a minha cidadela, o meu libertador, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte.”
(Sl 18)

 

    Rocha, escudo, baluarte estão no mesmo campo semântico, e exprime a ideia de fortaleza, lugar seguro. Cidadela é o local onde se pode estabelecer defesa. É o porto seguro que oferece livramento do ataque de inimigos. Sofremos investidas do adversário de nossa alma que ruge ao derredor procurando nos tragar.  Por isso, devemos permanecer vigilantes. Aurélio conceitua o verbo vigiar como observar ocultamente, estar de sentinela. Para Davi, o cerne da vigilância era conhecer Deus e seu meio de agir. A revelação geral do criador por meio da natureza e a especial por meio de sua Palavra foram os pilares do socorro invocado por Davi, que incluía em sua devoção a leitura do Pentateuco e a adoração com cânticos. A sombra das noites deste salmista foi dissipada pela confiança no Deus de seus pais. Depois de ter olhado para o firmamento do mundo, as angústias internas ficaram tão pequenas que o salmista percebeu a presença do Santo Espírito em seu ser. Quando pensava em  desmaiar ao ouvir ruídos de guerra, lembrava-se  do quanto precisava de Deus como seu libertador. E o invocava. A resposta sempre vinha, pois o criador sempre interage com sua criação e a ela responde. O escudo que apagaria os dardos inflamados do adversário era colocado em seu corpo pela potente mão do salvador. Isso era de seu conhecimento. Entretanto, para que o socorro divino chegasse antes da destruição, a invocação deveria acontecer em tempo oportuno. Davi conseguiu estocar munição espiritual sempre que adorava ao Senhor e meditava em sua Lei dia e noite. Era o homem segundo o coração de Deus, já que a busca pelo livramento divino o alinhava aos propósitos redentores.

 

Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua”

(Lc 22:42).

Jesus sabia do caminho tortuoso que o esperava, mas decidiu aliviar a dor que se revelou com gotas de sangue antes de enfrentar a via crucis. Ele, como homem, teve medo. Como conhecedor dos recursos eternos, tomou posse da oração, que pontuou sua vida diante das incertezas humanas. Por três vezes pediu ao Pai que o livrasse do sofrimento. Em seu espírito, a gratificação da obra redentora o impulsionou a prosseguir. O que o levou a não desistência? Certamente, a confiança inabalável no poder libertador das dores emocionais. A cruz estava internalizada e sua expiação era o meio que Deus determinara para cumprir o plano santo e misericordioso para com toda humanidade. Por meio do sofrimento que por algumas horas trouxe densas trevas, o mundo viu raiar a luz que exibiu salvação aos pecadores arrependidos. A natureza humana de Jesus compreendia todo processo redentor, mas foi seu espírito conectado com o céu que trouxe a força que o conduziu ao calvário. Foi pela aflição que aprendeu a obediência necessária à conclusão de seu ministério terreno.

“E Jesus, nos dias de sua carne, tendo oferecido forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa de sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem.”
(Hb 5.7-9)

 

Jesus foi ouvido não na condição de Filho. O escritor de Hebreus explicitou a piedade e a colocou como o motivo de suas orações adentrarem a eternidade.  Aurélio deixa registrado um conceito para piedade como “pena dos males alheios; compaixão, dó, comiseração”. O amor pela humanidade corrompida permeou a dor da alma do Cristo que se doou como expressão de que é possível passar por sofrimentos em prol de uma causa redentora. E Deus exige conduta semelhante de suas criaturas. O mandamento de amar ao próximo é lei fundamental imutável. Em momento algum da história do universo há o abandono da piedade como modo de agir na estrutura celeste. Deus provou seu amor ao enviar seu unigênito para garantia da vida eterna e determina que seres regenerados obedeçam a esse mandamento. Dores acontecerão. Contudo, o alívio jamais deixará de penetrar as densas trevas que acompanham angústia por dentro e tremores por fora. O socorro vem.

Deus, em sua sabedoria ilimitada, criou o homem com a divina semente implantada como essência do exercício da bondade. É possível desenvolver a piedade durante as noites escuras da vida. Jesus provou essa atitude no mais elevado grau de sofrimento quando foi feito menor que os anjos e assumiu a forma de homem. Em sua humanidade, tempo em que  dependeu exclusivamente da sabedoria divina, ensinou aos discípulos que as boas novas da salvação são anunciadas por um estreito caminho. Deixou como legado eterno seus atos registrados nos Evangelhos. Esses atos foram regados a perseguições, contradições dos doutores da lei, falsidades, pedradas, até que chegou o momento crucial: morte vicária.

Para encontrarmos luz que tanto desejamos para clarear as incompreensões das contrariedades vitais, precisamos saber que difícil é a estrada que conduz a vida eterna. Por isso, devemos inundar os céus com orações, clamores, súplicas. Então, todas as coisas irão cooperar com o nosso bem e todo acontecimento estará na dimensão do entendimento divino.

Davi denotou fé ao dirigir a Deus suas preocupações, medos e incertezas. A confiança inabalável no Altíssimo o fez enxergar a luz divina que brotava a cada adoração. Ele também registrou que é possível passar por aflições e encontrar bom ânimo.

 Busquemos luz que vem de Deus.

 

Por Auxilandia, pastora em Cristo, serva de Deus.

20 - 10 - 2010

 
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